quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Confesso que traí


Não conheço nenhum crime que não seja passível de perdão ou justificativa. Ladrões podem alegar que passavam necessidade. Assassinos, legítima defesa. Mentirosos, constrangimento ilegal. De todos os crimes, no entanto, ninguém perdoa a traição - de qualquer espécie. Ainda que alegue que perdoou, nunca esquece, e o fato sempre é lembrado quando necessário.

Trair é algo considerado tão sério que a traição contra a pátria é chamada, no código penal militar de alta traição (não, não existem nem a baixa, nem a média traição). A religião, seja ela qual for, sempre tem um caminho de perdão ou reparação de faltas e pecados, mas trair a fé é indesculpável, tem até termo específico : apostasia. Já houve um tempo que maridos traídos matavam as mulheres infiéis em nome da honra - o crime do assassinato era considerado menor que o crime da traição (só para um lado é claro...se a mulher matasse, iria para a cadeia). Aliás, esse é o cerne da questão. Outros crimes podem atingir bens materiais, ou o corpo de alguém, mas a traição atinge o orgulho, a honra, a auto-estima. As pessoas que traem seus próprios ideais costumam viver em eterno arrependimento.

E eu aqui tenho de admitir, cometi uma traição. Com todas as letras (ou quase todas). E traí ao melhor estilo italiano, cujo tão conhecido brocardo* "traduttori traditori" me relembra disso e me persegue. Pior, não foi a primeira vez, já tinha feito outras tentativas antes.

É verdade que, para me previnir, optei por trair alguém que já estivesse morto, até porque eu não acredito em almas penadas que venham me puxar as pernas no meio da noite.

Tradução é traição. segue abaixo minha confissão.


Rondels II
Stéphanne Mallarmé

Si tu veux nous nous aimerons
Avec tes lèvres sans le dire
Cette rose ne l’interrompe
Qu’à verser un silence pire

Jamais de chants ne lancent prompts
Le scintillement du sourire
Si tu veux nous nous aimerons
Avec tes lèvres sans le dire

Muet muet entre les ronds
Sylphe dans la pourpre d’empire
Un baiser flambant se déchire
Jusqu’aux pointes des ailerons
Si tu veux nous nous aimerons.


Redondilha II

Primeira versão

Se tua vontade for nos amaremos
Mesmo se teu lábio não falar
Estas rosas não impediremos
De um pior silêncio derramar

Nem se um canto sibilante se lançar
Sobre teu sorriso cintilante iremos
Se tua vontade for nos amaremos
Mesmo se teu lábio não falar

Mudos, mudos, entre ébrios caminhemos
Qual Silfo purpúreo e ancestral nos vemos
Entre beijos que se rompem flamejantes
Entre os cumes alados e distantes
Se tua vontade for nos amaremos.

Segunda versão

Se for tua vontade nos amemos
Até quando teus lábios não disserem
Se muitas rosas não nos impedirem
Que um pior silêncio derramemos

Nem cantos se lançando sibilantes
Sobre estes teus sorrisos cintilantes
Se for tua vontade nos amemos
Até quando teus lábios não disserem

Entre bêbados, mudos caminhemos
Como rubro Silfo em reinos bacantes
Entre beijos rompendo flamejantes
Aos cumes escarpados nos lancemos
Se for tua vontade nos amemos

Mallarmé , Stéphane . Poésies. Anecdotes ou Poémes . Pages diverses. Le livre de poche . Paris . 1984

*do Lat. med. Brocarda, sentenças de Brocardus, nome alatinado de Burckard, bispo de Worms, compilador de máximas, etc. s. m., sentença, axioma, princípio; máxima jurídica; aforismo, especialmente quando picante

13 comentários:

Lully disse...

Melhor que assumir que traiu, é traduzir em mais de uma versão a traição - LINDO!!
Traição de ideais, essa sim é dolorida, pesada e angustiante. O perdão ou a força para retomá-los (os ideais) só depende de nós.
E o que é a busca pelo "amor", pela satisfação primária, pelo pecado original, senão nossa constante traição aos nossos desejos e anseios?
Felizes os que traem, pois vão além da moral, dos valores e ética. Sendo que tudo isso é , também, totalmente questionávél, não é?

Anônimo disse...

como manteve ,(claro) , a essencia em ambos e desbravou essa batalha dura da tradução de poemas..fico com as duas.

belo demais o poema, demais não, na medida exata..

bijim
malmal

Taty disse...

A traição faz parte do ser humano, ainda mais quando é traição por amor ( ái eu me pergunto: dá pra amar 2 pessoas ao mesmo tempo? Descobri que sim! ).
Traiu, tá se sentindo culpado? Perdoe-se a si mesmo, antes de tudo.
Traiu, tá se sentindo bem? Viva a traição e os momentos gostosos deste ato.
Adorei o poema...

arimarcampos disse...

Você é realmente um raro pensador crítico e reflexivo.

Muito linda as conexões.


Mas ainda acredito, que a própria vida é uma constante traição.
Abraços.

Vilma disse...

Sua fidelidade não deixa sua traição passar despercebida.Acho que você foi muito mais fiel quando traiu.

Volney Faustini disse...

Sem humilhações, please ...

Gostei da primeirissima versão primorosa está, primorosa ficou!

abs

manduca disse...

fabio querido...acompanho seu blog e qto a postar comentários, até pensei em aceitar a provocação do macho man, mas acabei saindo calado, achando que não adiantaria polemizar com comentários um tanto demodê para a questão tão elementar...mas hoje, depois de lançar o mallarmé nesse refogado, vc ficou merecendo algumas linhas.

Mais do que ficar rivalizando, procuramos nos adequar e partir para o exercício, como num jogo de cartas (ou dados, em homenagem ao poeta), melhorando sempre a mão, procurando fazer melhor a cada dia, sem muito nhé nhé nhem...com nossas mulheres dividimos as atividades da casa, a atenção com os filhos, o espaço no campo do trabalho, do estudo, da pesquisa, do esporte...existe o consenso na escolha do lazer, do canal da tv, da cor do carro...tratamos elas sempre muito bem...cozinhamos (e bem!), servimos a bebida, criamos o clima, falamos palavras certas na hora certa...enchemos elas de carinho, mimos, presentes e atenção...oferecemos nosso pensamento, palavras, ouvidos, gozos e prazeres...desta forma, mais do que criar áreas de conflito, procuramos viver em paz, sem preconceitos...podemos deixar um comentário num blog, falar de amor, como vc fez hj, ou outra coisa qq, mas sempre numa direção: se não for para aperfeiçoar o silêncio, melhor não falar nada.

abração

manduca

guido finizia disse...

traduttori traditori com um T um abraço

Ludimila disse...

Post bem escrito... mas ainda vago... dúbio...

Comentários mais dúbios e desconexos ainda. Ou será que sou eu a burrinha que não sabe ler nas entrelinhas?

Ludimila disse...

Bom, a poesia é dúbia. Mas é pra ser mesmo. Senão, poesia não seria... fecho com ela...

Ludimila disse...

Espere! Esse poema não é nada dúbio! Ao contrário. Muito lindo...

(quando a burrinha finalmente entendeu a piada)

Alice disse...

... eu preciso do frio na barriga, do anseio, da espera ... do desejo, imaginar, para seguir.
Por vezes sem medidas, sem lógicas ou explicações porque senão não acontece.
E o time passa, e com todo um conjunto de sensações essenciais para mim. Minha usina.
Não saio à procura de traições e nem saberia descrevê-las, mas ao mesmo tempo em que luto contra, eu avanço sobre elas como que sobre um abismo da liberdade sobre mim mesma.. rs, confusa? Acho que sou uma pessoa confusa simplesmente vivendo.
Un poème charmant même que mes lèvres disent et tes oreilles n'écoutent pas.
Beijo imenso!!!

Alice disse...

Voltei para falar sobre a imagem, deliciosamente bem colocada.. Porque no exato momento da conturbada façanha da dita traição (independente da área que ela abrange na nossa vida) ..eh assim que nos sentimos, inocentes e vulneráveis como crianças!
Amei!