sábado, 29 de setembro de 2007

De volta ao deserto


Borges é, sem dúvida nenhuma, o meu autor favorito. Os contos são fenomenais (ou será que por serem fantásticos, são extra-fenomenais ?). Os ensaios e críticas são complexos e precisam de constantes releituras, nem por isso deixam de ser maravilhosos. As palestras publicadas em 7 noches são aulas maravilhosas sobre a vida, a arte, a poética. Poucos, no entanto, conhecem o Borges poeta. Ele não tem o lirismo de Neruda, nem a fluidez de Benedetti, seus vizinhos e contemporâneos. Algumas vezes é profundamente hermético, cheio de referências e símbolos.

Lembro de uma vez, acho que no final dos anos 70 ou começo dos anos 80, a Folha de São Paulo publicou um poema inédito dele. Eu me apaixonei de tal forma pelo texto que recortei a página do jornal que tenho guardada até hoje dentro de um dos seus livros. Está bem amarelado, me trás boas e más recordações e continua atualíssimo, mesmo depois da décima milésima leitura.

Admito que poucas vezes na vida eu tive a coragem de ser como Hierócles ou como o homem abandonado. Não poucas vezes eu olhei para a rosa. Olhei para trás como a mulher de Lot. Me dissolvi como uma estátua de sal.

Apesar de muito poucas, algumas vezes consegui. E aprendi que a coragem daquele homem o salvou, assim como o livrou de tormentos (e me livrou de tormentos).

Essa é a parábola que aprendi.

O deserto

Jorge Luís Borges

Antes de entrar no deserto
os soldados beberam longamente a água
da cisterna.

Hiérocles derramou na terra
a água de seu cântaro e disse :
Se temos que entrar no deserto,
já estou no deserto.
Se a sede vai me abrasar,
que me abrase já.
Esta é uma parábola.

Antes de afundar-me no inferno
os lictores do deus permitiram que eu
olhasse uma rosa.
Esta rosa agora é o meu tormento
no reino obscuro.

Um homem foi abandonado por uma mulher.
Resolveram fingir um último encontro.
O homem disse :
Se devo entrar na solidão,
já estou só.
Se a sede vai me abrasar,
que me abrase já.
Esta é outra parábola.

Ninguém na terra
tem a coragem de ser aquele homem.

7 comentários:

Vilma disse...

Que nosso cantil esteja cheio de aceitação e coragem...

Bebemos da mesma água para enfrentar desertos diferentes...

Volney Faustini disse...

A falta de coragem não é parábola, talvez a sua expressão ...

Por isso, exatamente por isso, preciso de coragem, para antes de entrar no deserto ...

Tocante! Valeu.

Anônimo disse...

Há dese viver intensamente , sem desculpas.
e isso é uma capacidade dos que vivem sem mêdo..

bijo pela clareza.

malmal

Nina Victor disse...

A solidão me espreitava e eu nem sabia. Se soubesse teria me antecipado à ela...
Obrigada pelo poema! :)

Lou Mello disse...

Talvez a coragem apareça quando sabemos o que há à nossa frente, provavelmente, despertada pelo medo. Depois da cegueira estabelecida, a imagem da rosa vira tortura.

Taty disse...

Desertos, desertos, desertos....lugar que traz prazer, que me faz bem.......e haja água e haja coragem....e haja força de vontade!

M. disse...

Não imagino que vá ler este comentário após tanto tempo, mas lá vai:

Ano passado, num sebo-livraria em Rio Claro/SP, foi comprado por uma adolescente de cabelos cor de rosa um exemplar verde - "O que é isso, companheiro?", de Gabeira - que, em seu interior, continha um papel jornal amarelado, recortado de uma Folha de São Paulo, com o poema de Borges, o mesmo que comenta aqui.

Após uma árdua busca na Internet, os acasos mil mostraram esse blog. Pelo tamanho da coincidência, não deve ser absurdo comentar aqui o ocorrido. Se for seu poema, agora sabe onde ele está: numa estante de uma adolescente cor de rosa.

http://imgur.com/AGUpZFc - o recorte, sem cortes.