sábado, 8 de setembro de 2007

Outra traição


Alemão, como diria uma velha piada, para mim é grego. Não me mande originais de Goethe e Schiller por que eu não vou ler. Sou totalmente dependente das traduções ou pelo menos de uma áudio descrição (está vendo como não é só para as pessoas cegas MAQ ?).

No entanto, a minha mais velha amiga (no tempo de amizade, não da idade dela), estudou, morou, casou e descasou na Alemanha e, com ela, eu acabei aprendendo algumas palavras. A minha preferida sempre foi Fernweh, uma palavra intraduzível que significa algo como a saudade do desconhecido, ou saudade daquilo que não aconteceu. E não é expectativa frustrada. É um estado de alma, de certa forma melancólico, mas não triste, diferente de outra palavra Schwermut que signifca estar com a alma pesada.

Uma vez ela me apresentou um poemeto medieval chamado Dû bist mîn :

Dû bist mîn, ich bin dîn:
des solt dû gewis sîn.
dû bist beslozzen
in mînem herzen:
verlorn ist das slüzzelîn:
dû muost immer drinne sîn.

(Existem versões em alemão contemporâneo, se algum dos meu leitores tiver intimidade com a língua é só me avisar que eu mando. Não vou colocar aqui pois seria excesso de pedantismo.)

Claro que, junto ela me mandou uma tradução literal do texto para que eu não ficasse nem slüzzelîn nem beslozzen, seja isso lá o que for.

Tu és minha, eu sou teu :
Disso deves estar certa.
Tu estás trancada em meu coração :
Perdida está a pequena chave :
tu deves para sempre aqui ficar.


Como bom traidor que sou ( vide "Confesso que traí") e metido a besta no trato com as palavras perpetrei duas brincadeiras, uma mais comportada, outra um pouco menos. Não sei se consegui captar, ao mesmo tempo, a singeleza e a complexidade do poema.


1
És minha sou teu
Certa esteja disso
Trancada num coração
Cuja chave se perdeu
Não sairás jamais.


2
Minha teu sou sua
Certeza continua
Sem chave cadeado
Sem porta coração
Amor doce prisão

5 comentários:

Alice disse...

Tão belo que me calo.
Tão singelo que me atrevo a reler.
Tão seguro e protetor que não temo.. a ínfima chance de lá me perder.


..rs abusada não?
Acho que perdi a mão de escrever poemas, a tanto não faço.
Lindos versos e inspiradores.
Insanidade.. insensatez faz isso com a gente, expoe sem pedir lincença.
Beijo!

Pessoa Comun disse...

Ah, meu bom amigo, continue traindo, que suas traições rendem viajens.Fico com a segunda versão.

bijim de domingo 51.

Taty disse...

Traição


Perdida no labirinto de cada um

claramente só
no falso abismo
do último ato:
capitula!
da corda do violino
som
claramente som
inconformista da alma
aniquilada:
trégua.
Sentimentos cotidianos
renegas
trais
passiva
mentes ao som do violino de cada um,
acordas do torpor e sentes nada
tudo escoa
em buracos negros
gangrenam sentimentos cotidianos
da alma obtusa
silenciosamente
conformada.
Germano Rocha

Vilma disse...

Uma chave para cada cadeado, parece que o seu tem cópias...

Lully disse...

Eu, fico com na inocência e penso: "procura-se uma chave para certo coração".